segunda-feira, 28 de abril de 2008

Poeira no Vento


Fonte: http://www.crepaldi.adv.br/imagens/balanca.jpg

Não vejo como algo errado comparar pessoas e poeira. Algumas vezes, quando minha condição emocional me foi favorável, em um fim de tarde, após observar um pôr-do-sol tímido, que só me ajudou a me sentir ainda pior, ajoelhei na areia umidecida da praia. Com um punhado de areia nas mãos, pude observar que se eu deixasse a mão muito aberta, o vendo, forte e cortante que soprava, levaria a areia com ele, caso eu deixasse a mão muito fechada, o punhado de areia começava a escapar, desfeito em grãos por entre meus dedos, para, novamente, ser levado pelo vento.

Devido ao momento altamente introspectivo em que eu estava, comecei a pensar na situação e a associei comigo. Eu me lembrei de alguns relacionamentos passados, onde a mão esteve aberta demais, outros onde a mão esteve fechada demais. Eu me senti como aquele punhado de areia.

Quando a mão esteve aberta demais, ou seja, quando a outra pessoa não deixava claro para mim o que ela sentia, o que eu era para ela, o que eu significava em sua vida, fatalmente, fui impelido para fora da vida daquela pessoa, levado pelo vento.

Quando a outra pessoa me segurou demais entre seus dedos, quando tive de pequenos aspectos, detalhes, momentos a grandes pedaços de minha liberdade ser cerceada, seja através de duras críticas, comentários cruéis, ou, até mesmo da tentativa direta de castração, eu me senti impelido a me libertar.

É inevitável; nestes momentos eu me peguei pensando e comparando o relacionamento em que eu estava com relacionamentos anteriores e com as minhas expectativas referentes ao relacionamento que eu estava vivendo. Mesmo sabendo que dois relacionamentos distintos são incomparáveis, por si só, esta necessidade de comparação foi algo completamente natural e espontânea.

A nossa natureza, tão humana, nos leva a comparar sentimentos, atenção, gemidos, sussurros, gestos, opiniões. Esta necessidade de comparar, de medir coisas, ainda que estas coisas sejam naturalmente imensuráveis, faz com que pessoas se permitam querer cobrar de outras as mesmas vivências e oportunidades que foram dadas em relacionamentos e vivências anteriores.

Esta é uma das piores sentenças que podem ser aplicadas contra a pessoa amada: usar contra ela o próprio passado dela. Justificar o que quer que seja com o passado da pessoa amada. Será que a palavra amada pode ser utilizada para se referenciar alguém que foi vítima de tamanha crueldade?

A questão é que, muitas vezes somos cegados pelo sentimento, pelo que sentimos, pelos “efeitos colaterais” do amor. Não percebemos que estamos fazendo mal a quem amamos, muitas vezes através de pequenos gestos e atitudes possessivas inconscientes.

O problema é que muitas vezes há uma importância enorme dada às pequenas coisas, aos pequenos gestos, aos pequenos e breves momentos singelos, que são obscurecidos e desconsiderados, não propositalmente, mas sim pela rotina e correria que a vida atual nos impõe. Este descuido involuntário pode nos levar, inconscientemente a “matar” por dentro uma pessoa ou a minar um relacionamento.

Poucas vezes nos questionamos qual foi, para a pessoa, a importância que teve para ela nos mandar aquele singelo recado em uma folha de papel, ainda que suja e amassada, que, simplesmente, sem perceber, ferimos mortalmente ao incendiar ou jogar fora, apenas para não deixar rastros ou vestígios da mensagem, talvez por medo da curiosidade alheia.

Será que o singelo recado ainda teria sido queimado e jogado fora caso fosse demonstrado, da parte de quem o escreveu, qual a sua importância ou significado, em preservar o recado, não simplesmente por ser um recado, mas pelo significado que teve em ser escrito?

Significado é algo importante. Porém, só pode ser percebido se dito. Não adianta esperar que a outra pessoa perceba que algo nos foi importante, se não for dito. Por mais que se ache ou que se queira achar que a pessoa entenderia, de forma natural e espontânea um significado, as coisas devem ser deixadas claras.

Não se pode esperar que a outra pessoa tenha uma atitude condizente com o que é importante para você, se você nunca deixar claro para ela o que é importante para você, por mais que ela queira.

Algumas vezes atropelamos o outro, por não saber. Algumas vezes ferimos ao outro, por não termos noção do que aquilo significa e significou ao outro.

Um relacionamento é feito das pequenas coisas.

domingo, 27 de abril de 2008

E Se ... ?



Fonte: http://havesometea.net/NonLiquet/wp-content/uploads/2007/07/roker-lighthouse-on-the-northeast-cost-of-england-jonboy247.jpg



Somos seres constantemente atormentados pelas incertezas e possibilidades, sendo, para nós, difícil lidar com estas situações, que atuam em nossos medos e expectativas, incluindo o que nós temos medo de nos tornar, o que nós gostaríamos de ser e até mesmo como gostaríamos de ser.

Talvez por isso a gente precise tanto fugir da realidade, se permitir, ainda que apenas por poucos instantes, ser algo que nos é impossível ser na realidade, por fatores que muitas vezes nos fogem do controle. Seria como acreditar que se as coisas fossem diferentes, você poderia ser quem você gostaria de ser, ser como você gostaria de ser.

Algumas vezes estas angústias começam por questões financeiras, imaginar-se fazendo coisas incríveis, diferentes, outro padrão de vida caso tivesse muito dinheiro. Imaginar-se como um conquistador nato caso fosse bonito, imaginar-se um acadêmico imbatível caso fosse inteligente, são apenas alguns exemplos.

A questão toda é que quanto a ser bonito ou inteligente, são aspectos altamente questionáveis! O ponto é: “ser bonito”, “ser inteligente” ou o que quer que seja, neste caso, pode apenas ser uma dissimulação de um estado de conforto do qual a pessoa não quer abandonar. Usar algo “imutável” como justificativa pode esconder que simplesmente a pessoa pode não estar motivada ou animada o suficiente para correr atrás de algo, lutar por algo, sair da inércia.

Li alguma vez em algum lugar que a pior coisa que se pode fazer é ficar parado em algum lugar esperando que as coisas mudem. As coisas só mudam através do esforço, do trabalho, do correr atrás e lutar para que as coisas mudem.

Não existe pior suicídio do que uma vida inócua. A vida é de cada um, cabe a cada um decidir o que fazer com ela, eu sei disso. Respeito isso, porém, do ponto de vista humano, ver uma pessoa negar a ela mesma a possibilidade e o direito de viver a própria vida, de ter uma vida produtiva, conforme Sartre, somos responsáveis por viver nossa vida.

Eu sei, a vida é de cada um, mas, não se deve jogar uma vida fora. Não se deve permitir que a preguiça, tédio ou as incapacidades e monstros que cada um criou para si impeçam uma pessoa de viver ou de lutar. Esta é a razão da vida.

Como dizia Renato Russo, “viver é foda, morrer é difícil”. Mas, não podemos deixar que as dificuldades que nos impomos, as dificuldades que tanto gostamos de ver na vida, nas pessoas e no mundo, nos impeçam de viver com responsabilidade, assumindo os nossos atos, assumindo quando erramos, enfrentando a vida e pagando o preço por isso.

Ainda conforme Sartre, cada um é responsável por sua vida, por viver sua vida da forma que achar certa e pagar o preço por isso, sem, por qualquer razão que seja, poder julgar aos outros ou, usar atos e atitudes passadas ou presentes de outrem para justificar qualquer ato ou atitude presente.

sábado, 19 de abril de 2008

Aprendendo a Aceitar (ou A Síndrome do Amante Ciumento)


Nós, humanos, somos essencialmente (eu sei, a existência precede a essência, mas, abstraindo Sartre) gregários, o que implica em uma necessidade de contato com outras pessoas, outros seres de nossa espécie.
Esta necessidade de companhia, ocasiona em graus menores ou maiores, a necessidade de aceitação por grupos sociais, por pessoas com quem dividir a vida, pela família.

Entretanto, enquanto nós esperamos ser aceitos pelos outros do jeito exato que nós somos, e dificilmente estamos realmente preparados para nos esforçar para aceitar aos outros do jeito que os outros são.
É comum se pegar pensando, em todas as coisas que você gostaria de mudar nas outras pessoas, ou, como você gostaria que os outros fossem. As pessoas são a essência da diferença.

Entretanto, algo que deve ser lembrado, é que pessoas possuem um passado associado a elas, e, este passado, por mais obscuro ou abjeto que possa ser (conforme a ótica de quem julga), é responsável pelo que a pessoa é hoje.
Estas vivências passadas transformaram a pessoa (para melhor ou para pior). Assim como pode ser difícil para quem ama aceitar que a pessoa já possuía uma vida, uma existência, um passado e incontáveis vivências antes que ela fizesse parte da vida da outra pessoa. Esta dificuldade em lidar com o passado pode fazer com que, algumas vezes, a pessoa julgue o passado da outra pessoa, se permita sentir ciúmes das experiências, das vivências passadas, das pessoas que passaram pela vida da outra pessoa, independente de terem deixado lembranças ou não.

O passado ainda ecoa, nas atitudes, nos gestos, no proceder atual do ser. Este passado, por mais difícil de aceitar que seja, é responsável pelo que a pessoa é hoje. Todas estas experiências, traumáticas, excessivas, transcendentes, vividas das maneiras e formas mais insanas, luxuriosas e, até mesmo “abjetas” possíveis, são responsáveis pelo que a pessoa é hoje. As experiências transformam. O passado transformou um alguém na pessoa que é hoje. Ninguém passa impune pelas experiências e experimentações da vida. Como já foi dito, não se atravessa o mesmo rio duas vezes; as águas passaram e a houve mudanças ao atravessar o rio pela primeira vez.
Entretanto, ninguém possui o direito de julgar o passado de outrem, independente da relação atual entre os indivíduos. Ninguém tem o direito de se sentir dono do passado, presente ou futuro de outra pessoa. Este sentimento de posse, apesar de comum, deve ser evitado, ou pode se tornar mais forte, marcante e presente do que os sentimentos entre os seres, transformando a relação em uma relação de posse.

Qual o direito que se tem de se revoltar com o fato de que o outro amou e foi amado por outras pessoas, teve relações sexuais com inúmeras outras pessoas, foi vista nua por inúmeras outras pessoas, teve prazer de inúmeras pessoas diferentes, das mais diversas formas e proporcionou prazer a tantos outros? O que faz alguém se sentir no direito de querer ser dono do corpo ou do prazer da outra pessoa?

Estas situações podem levar a inúmeras pequenas dificuldades em um relacionamento, pelo ciúme daquele que ama: Desejar que todas as experiências que foram vividas pela pessoa amada, das menos importantes às mais significativas, tivessem sido vividas integralmente com a participação dele.

Esta dificuldade em lidar com o passado alheio pode ser oriundo de decepções de seu passado, ter confiado em pessoas que ocasionaram decepções grandes, mesmo que este saiba que não pode generalizar indivíduos. Pessoas não são iguais, de forma alguma, em momento algum.

Desta forma, não se pode esperar que as pessoas sejam como gostaríamos que elas fossem, e, ainda mais, que elas tenham o passado que gostaríamos que elas tivessem. O passado de uma pessoa deve ser respeitado. Não se pode permitir se permitir ter o direito de usar o passado de uma pessoa contra ela. Ninguém tem esse direito.
O que quer que ela tenha vivido, deve ser respeitado, ainda que a pessoa não tenha respeitado a própria consciência na época, ela pagou o preço de seus atos, de uma forma ou de outra.