sexta-feira, 6 de junho de 2008

Fantasmas



Fonte: http://i184.photobucket.com/albums/x79/pixvirtual/fc/147/Nazgul.jpg



Deixando a semântica de lado, fantasma é uma palavra muito bela ao meu ver. A uso fora do prisma religioso. Acredito que ela cabe para ilustrar a dificuldade de uma pessoa em aceitar que algo aconteceu a ela, independente dela ter participado da situação ou evento voluntariamente, ou ter sido induzido de alguma forma a participar. A dificuldade em aceitar o ocorrido cria um pensamento constante, agredindo a consciência e atormentando o indivíduo. Por isso, acredito que não poderia haver palavra mais adequada para descrever este tipo de situação do que fantasma.

É o passado voltando para cobrar o seu preço, pelas coisas vividas e não vividas.

É normal de tempos em tempos, determinadas situações, que não foram resolvidas nos momentos oportunos, voltarem para assombrar e cobrar seu preço. Este preço pode vir de uma forma saudosista: dor (algumas lembranças realmente doem, de uma forma absurda), depressão (algumas vezes é difícil conseguir se olhar no espelho), medo (fugir da própria realidade mais uma vez).

O problema em potencial que surge destas situações é quando os fantasmas bloqueiam as ações presentes e impossibilitam situações futuras, pelo simples medo de repetir, reincidir em um erro ou em uma decisão que produziu, ainda que com “parcela de culpa” reduzida um resultado desastroso ou doloroso, algo pelo qual a pessoa jamais será capaz de se perdoar.

Medo.

Medo de errar, medo de ferir quem ama, medo de magoar, medo de ser abandonado, medo de ficar só. Medo de lutar. Medo de enfrentar a vida. Medo de fugir ou de lutar por algo melhor. Medo de ser livre. Medo de pagar o preço de ser livre. Medo de viver.

O que fazer quando a realidade é um apanhado de momentos e situações tristes? Acordar de segunda a sexta para ir trabalhar e receber um salário no fim do mês. Sair do final de semana para gastar o salário que ainda não foi pago. Círculo vicioso. Corrida dos ratos. Será que a vida se resume apenas a isso? Consumir e ser consumido.

Viver correndo, com medo, comendo excessivamente devido à angústia dos fantasmas que foram criados e dos fantasmas que se permite que os criassem em seu nome. Lutando no escuro contra fantasmas que nem podem ser vistos, mas que podem ser sentidos como ainda presentes. O passado ainda ecoa nos gestos e ações presentes e futuros.

Qual o real sentido da necessidade quase infantil de se ter coisas para concertar, de precisar recomeçar as coisas do zero por achar que elas não foram feitas direito, do jeito que o ser sabe que poderia ter feito, mas, independente da razão, não o fez.

Apenas você pode ter certeza do que vê além do seu semblante cinza-pálido e frágil, além do espelho. Você também pode esperar alguém gritar isso perante os olhos tímidos, olhando para o chão de quem não tem mais pulmões para gritar nem lágrimas para chorar.

A vida é frágil. Só você pode se livrar de seus fantasmas, enquanto está vivo, enquanto sente e sabe que está vivo. No momento em que você passar a apenas sobreviver, seus fantasmas terão terão te dominado. Neste ponto, você se torna um zumbi e apenas sobrevive aos seu fantasmas.

Um comentário:

Pam disse...

BOm, primeiro, dizer que essa ideia dos fantasmas existe na psicanálise :)
Segundo dizer que tive que futucar para ler seu texto...bua!

Terceiro, dizer muito obrigada. Acho que ler seu posto veio muito a calhar pela atual situação que passo (você sabe tão bem como eu, não? está sempre segurando a barra comigo). O que seria da vida senão uma caçada aos velhos fantasmas e produção de novos? Na minha área, dizem-se que existe um fantasma primordial, aquele inicial que lhe atormenta, e que muitas pessoas nao consegue "atravessar". Quando isso ocorre, porém, há um sincero sentimento de liberdade.

Vamos ver como será essa travesia, não?

Amo você!

beijos meu querido