sábado, 19 de abril de 2008

Aprendendo a Aceitar (ou A Síndrome do Amante Ciumento)


Nós, humanos, somos essencialmente (eu sei, a existência precede a essência, mas, abstraindo Sartre) gregários, o que implica em uma necessidade de contato com outras pessoas, outros seres de nossa espécie.
Esta necessidade de companhia, ocasiona em graus menores ou maiores, a necessidade de aceitação por grupos sociais, por pessoas com quem dividir a vida, pela família.

Entretanto, enquanto nós esperamos ser aceitos pelos outros do jeito exato que nós somos, e dificilmente estamos realmente preparados para nos esforçar para aceitar aos outros do jeito que os outros são.
É comum se pegar pensando, em todas as coisas que você gostaria de mudar nas outras pessoas, ou, como você gostaria que os outros fossem. As pessoas são a essência da diferença.

Entretanto, algo que deve ser lembrado, é que pessoas possuem um passado associado a elas, e, este passado, por mais obscuro ou abjeto que possa ser (conforme a ótica de quem julga), é responsável pelo que a pessoa é hoje.
Estas vivências passadas transformaram a pessoa (para melhor ou para pior). Assim como pode ser difícil para quem ama aceitar que a pessoa já possuía uma vida, uma existência, um passado e incontáveis vivências antes que ela fizesse parte da vida da outra pessoa. Esta dificuldade em lidar com o passado pode fazer com que, algumas vezes, a pessoa julgue o passado da outra pessoa, se permita sentir ciúmes das experiências, das vivências passadas, das pessoas que passaram pela vida da outra pessoa, independente de terem deixado lembranças ou não.

O passado ainda ecoa, nas atitudes, nos gestos, no proceder atual do ser. Este passado, por mais difícil de aceitar que seja, é responsável pelo que a pessoa é hoje. Todas estas experiências, traumáticas, excessivas, transcendentes, vividas das maneiras e formas mais insanas, luxuriosas e, até mesmo “abjetas” possíveis, são responsáveis pelo que a pessoa é hoje. As experiências transformam. O passado transformou um alguém na pessoa que é hoje. Ninguém passa impune pelas experiências e experimentações da vida. Como já foi dito, não se atravessa o mesmo rio duas vezes; as águas passaram e a houve mudanças ao atravessar o rio pela primeira vez.
Entretanto, ninguém possui o direito de julgar o passado de outrem, independente da relação atual entre os indivíduos. Ninguém tem o direito de se sentir dono do passado, presente ou futuro de outra pessoa. Este sentimento de posse, apesar de comum, deve ser evitado, ou pode se tornar mais forte, marcante e presente do que os sentimentos entre os seres, transformando a relação em uma relação de posse.

Qual o direito que se tem de se revoltar com o fato de que o outro amou e foi amado por outras pessoas, teve relações sexuais com inúmeras outras pessoas, foi vista nua por inúmeras outras pessoas, teve prazer de inúmeras pessoas diferentes, das mais diversas formas e proporcionou prazer a tantos outros? O que faz alguém se sentir no direito de querer ser dono do corpo ou do prazer da outra pessoa?

Estas situações podem levar a inúmeras pequenas dificuldades em um relacionamento, pelo ciúme daquele que ama: Desejar que todas as experiências que foram vividas pela pessoa amada, das menos importantes às mais significativas, tivessem sido vividas integralmente com a participação dele.

Esta dificuldade em lidar com o passado alheio pode ser oriundo de decepções de seu passado, ter confiado em pessoas que ocasionaram decepções grandes, mesmo que este saiba que não pode generalizar indivíduos. Pessoas não são iguais, de forma alguma, em momento algum.

Desta forma, não se pode esperar que as pessoas sejam como gostaríamos que elas fossem, e, ainda mais, que elas tenham o passado que gostaríamos que elas tivessem. O passado de uma pessoa deve ser respeitado. Não se pode permitir se permitir ter o direito de usar o passado de uma pessoa contra ela. Ninguém tem esse direito.
O que quer que ela tenha vivido, deve ser respeitado, ainda que a pessoa não tenha respeitado a própria consciência na época, ela pagou o preço de seus atos, de uma forma ou de outra.

3 comentários:

Unknown disse...

Mas mas não é fácil aceitar certas "coisas" do passado de alguém de quem gostamos, por muito que saibamos que até é uma atitude egoísta.

Inácio Ferrarini disse...

Aceitar o passado do outro pode ser algo difícil. Quando há sentimentos envolvidos, pode se tornar mais difícil ainda.
Porém, por mais difícil que seja, por mais que doa, o passado é inseparável do que a pessoa é hoje.

As experiências pelas quais o outro passou são importantes por fazer parte do processo que originou o que esta pessoa é hoje.

Porém, não se pode exigir que a pessoa nunca tenha vivido nem experimentado a vida antes de você. Assim como ela não pode exigir o mesmo de você.

Ainda acredito que o que deve prevalecer é a vontade das pessoas de dividir a vida, respeitando todas as pequenas diferenças.

Unknown disse...

É encontrando textos como estes, que somos "obrigados a repensar" o modo como pensamos, talvez assim seja mais fácil atingir aquilo que nos prende no nosso sentir.